O Clube da Luta – Violência como recurso legítimo.

          Em o Clube da luta (1999), de David Fincher, vivenciamos, inicialmente, as frustrações de Jack (Edward Norton – que um ano antes havia feito A outra história americana, de Tony Kaye), vemos as formas como ele deseja dar à sua vida algum sentido – ou pelo menos, se livrar da insônia. Primeiramente, os móveis, a tara por revistas de mobílias e as constantes mudanças no apartamento. Depois, os grupos de apoio para doentes terminais ou em recuperação. Grandes mentiras, nenhuma dessas coisas ajudava Jack por muito tempo (pelo menos os encontros o livraram da insônia). Nosso protagonista trabalhava numa empresa de seguros, o trabalho dele era o de se empenhar que sua empresa não pagasse indenizações a acidentes, que Jack sabia ser culpa dos fabricantes. Ou seja, ele trabalhava prejudicando a vida dos outros para que seus patrões pudessem ter lucros mais altos.

          Mas, eis que numa de suas viagens de avião ele conhece Tyler Durden (Brad Pitt). Tyler era tudo o que Jack desejava ser, tanto nas ideias quanto na aparência – a título de curiosidade, Tyler já aparecia em flashes durante o filme*. Sua chegada mudou tudo. Era possível sentir prazer na dor. Era possível ressuscitar a partir do caos. Era necessário soltar o que havia dentro de si e a violência era um ótimo caminho. A violência controlada (até porque o Clube da Luta tem regras) passa a ser vista com bons olhos. Liberdade e violência passam a estar irmanadas. No Clube da Luta são todos sujeitos, todos sangram e sangrarão em comunhão, felizes e livres.

Enfatizo novamente, no Clube da Luta temos regras. A violência é direcionada e controlada (apesar da possibilidade de poder fugir do controle, como ocorre, uma vez, no filme). A visão por sobre a sociedade é a pior (porém honesta) possível: estamos todos infelizes, medíocres em nossas vidas de consumo (consumo de massas e para massas). O consumismo exacerbado, as amizades descartáveis e estéreis, a objetação do outro, a crescente individualização, a crise da alteridade, são muitas as razões pro surgimento de Tyler Durden. Somos todos reprimidos, nossos desejos, assim como nossas vidas, são controlados ao extremo.

            O Clube da Luta cresce e Durden inicia o Projeto Destruição. Não se quebra tudo nem qualquer coisa, assim como no clube, o projeto tem regras claras. As ações são contra todas as amarras sociais e culturais que nos prendem a um estilo de vida de meros consumidores. Este Projeto terá como fim último colapsar o sistema bancário do país, zerar as dívidas dos cidadãos. O caos, a ressurreição e a destruição definitiva desse modo de estar no mundo.

Quando Jack descobrir que ele e Durden são a mesma pessoa, assim como o objetivo do Projeto Destruição, ele fará de tudo para impedir que tal Projeto seja bem sucedido. Jack não tem a coragem necessária ou apenas tem medo do caos. Não poderia dizer ao certo as razões de Jack em se empenhar para que Durden seja mal sucedido. Mas, se fosse arriscar, diria que isto é graças ao grande medo dele. O medo o imobiliza desde o começo do filme. O medo do futuro incerto. O medo da mudança. O medo de tudo.

Para finalizar, o subtítulo escolhido por mim, “Violência com recurso legítimo”, poderia ter no seu fim um ponto de interrogação, dado que meu objetivo é dialogar com você sobre a legitimidade da violência nas ações que visam grandes mudanças. Violências direcionadas, obviamente. Se deixei como uma afirmação é porque Tyler Durden não teria dúvidas nesta questão, nem David Fincher, nem eu.

Quanto maior a segurança promovida, maior a insegurança presente.

Nossa grande guerra é a guerra espiritual. Nossa grande depressão são as nossas vidas. Todos nós fomos criados pela televisão para acreditar que seríamos milionários, deuses do rock ou estrelas do cinema. Mas não somos. Devagar vamos tomando consciência disso. E estamos muito revoltados. (FINCHER: 1999)

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http://uninuni.com/mensagens-subliminares-clube-da-luta/

 

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